Evento de três dias juntou Banco Central, bancos privados e empresas de cripto para debater tokenização, stablecoins e os efeitos da nova regulação brasileira sobre o setor.
Para quem acompanha de fora o universo cripto, pode parecer que blockchain ainda é assunto restrito a um grupo pequeno de entusiastas e investidores. Um evento realizado nesta semana no Rio de Janeiro mostra o contrário: bancos como Itaú, Bradesco, Santander e Inter, além do BTG Pactual, mandaram representantes para discutir, lado a lado com reguladores e startups, como a tecnologia por trás das criptomoedas está sendo incorporada à infraestrutura financeira tradicional.
O que foi o Blockchain.RIO 2026
O Blockchain.RIO Week aconteceu entre os dias 11 e 13 de agosto, com o evento principal, o Blockchain.RIO, concentrado nos dias 12 e 13 no ExpoRio, na Cidade Nova. Em sua quinta edição, o encontro se consolidou como um dos principais pontos de convergência do setor de ativos digitais na América Latina, reunindo um público estimado entre 15 mil e 20 mil pessoas, entre executivos, reguladores, pesquisadores e desenvolvedores.
A programação foi organizada em 13 trilhas de conteúdo, cobrindo temas como regulação, tokenização, stablecoins, pagamentos globais, inteligência artificial aplicada a finanças e infraestrutura bancária. Uma das novidades desta edição foi o Fórum Blockchain Academia x Indústria, espaço criado para aproximar pesquisas desenvolvidas em universidades das demandas práticas de empresas que já trabalham com blockchain no dia a dia.
Regulação foi o tema que dominou os debates
Antes mesmo do evento principal, a programação institucional reuniu representantes de bancos centrais do Brasil, Peru e El Salvador, além de instituições como CVM e FAPERJ, em um painel de abertura dedicado a discutir o equilíbrio entre inovação e supervisão do mercado de criptoativos. A presidente da ABCripto, Julia Rosin, destacou durante o encontro que os próximos anos serão decisivos para a maturidade regulatória do setor no país, motivo pelo qual a associação passou a atuar em conjunto com a organização Juntos por Cripto voltada à educação de parlamentares sobre o tema.
A recém publicada Resolução BCB nº 584, que cria uma retenção cautelar de 24 horas para transferências de criptoativos ao exterior ou para carteiras de autocustódia, também virou pauta central de um dos painéis mais comentados do evento, batizado de “Construindo a Infraestrutura das Finanças Digitais”. Representantes de corretoras e empresas de tecnologia expuseram posições opostas sobre a medida, evidenciando que a discussão sobre regulação está longe de terminar mesmo depois de uma norma já publicada.
Bitcoin, stablecoins e tokenização de ativos reais
Entre as palestras que mais chamaram atenção estava a apresentação de Guilherme Gomes, da OranjeBTC, sobre o papel do Bitcoin como infraestrutura financeira institucional, tema que reflete a mudança de percepção sobre o ativo entre grandes investidores nos últimos anos. Já Guido Messi, representante da Ripio, discutiu o espaço crescente das stablecoins em operações de pagamento e liquidação internacional, um mercado que tem crescido de forma consistente no Brasil desde a publicação das resoluções do Banco Central sobre o tema.
Outro destaque ficou por conta da fala de Federico Gomez Schumacher, da Stellar Development Foundation, que resumiu um dos maiores desafios atuais do setor: criar um ativo tokenizado é hoje um processo relativamente simples, mas distribuí-lo de forma eficiente para investidores segue sendo o verdadeiro obstáculo técnico e regulatório. A observação dialoga diretamente com o movimento observado entre bancos brasileiros, que já testam projetos de tokenização de debêntures e cotas de fundos em parceria com entidades como a ANBIMA.
Por que esse tipo de evento importa para o usuário comum
Ainda que boa parte da programação do Blockchain.RIO tenha sido voltada para um público institucional, as discussões realizadas ali tendem a influenciar diretamente a experiência de quem usa criptomoedas no dia a dia. Decisões sobre regulação, como a própria Resolução BCB 584, e sobre a infraestrutura de tokenização de ativos financeiros tradicionais moldam, na prática, quais produtos estarão disponíveis para o investidor brasileiro nos próximos anos e sob quais regras eles vão operar.
O evento também reforçou uma mudança de narrativa dentro do próprio setor: cada vez mais, blockchain deixa de ser tratado como sinônimo exclusivo de especulação com criptomoedas e passa a ser discutido como uma camada de infraestrutura capaz de conectar mercados tradicionais e ativos digitais, com aplicações que vão de pagamentos globais a logística e cadeias produtivas.
Como em qualquer tecnologia ainda em fase de consolidação regulatória, é importante que o investidor acompanhe essas discussões com cautela e busque fontes qualificadas antes de tomar decisões, já que o mercado de criptoativos segue sujeito a riscos de volatilidade, segurança e mudanças normativas relevantes. Este texto tem caráter informativo e não representa recomendação de investimento.
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https://cointelegraph.com.br/news/brazilian-crypto-news-61
