Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, vê no retrofit uma das transformações mais interessantes do mercado imobiliário paulistano nos últimos anos. Quando se observa o horizonte da cidade, boa parte dos prédios mais antigos guarda um potencial que só recentemente passou a ser levado em conta por investidores e arquitetos. Dados da Caixa Econômica Federal apontam mais de sete mil edifícios com potencial para esse tipo de intervenção somente na capital paulista, movimento que deve gerar cerca de R$ 40 bilhões por ano até 2040.
Neste artigo, vamos entender o que caracteriza um retrofit bem-feito, o que ele preserva da história do edifício e por que esse mercado já avança para além do centro histórico da cidade.
O que o retrofit preserva e o que ele atualiza?
Diferente de uma reforma convencional, o retrofit consiste em uma atualização completa ou parcial de um edifício antigo, mantendo sua estrutura principal e boa parte de seus elementos originais, enquanto incorpora tecnologias e sistemas que o prédio jamais teve quando foi construído décadas atrás. Instalações elétricas, hidráulicas, sistemas de prevenção contra incêndio, acessibilidade e conforto térmico e acústico, itens que sequer existiam como exigência técnica na época da construção original, ganham solução completa sem que o edifício precise ser demolido para dar lugar a algo novo.
A preservação estrutural representa parte importante do valor do retrofit, já que muitos desses prédios ocupam localizações estratégicas que seriam impossíveis de reproduzir hoje, seja pelo custo do terreno, seja pela própria disponibilidade de área construível em regiões centrais e já consolidadas. Sendo assim, Daugliesi Giacomasi Souza transmite que manter a estrutura original também reduz o volume de entulho gerado em comparação a uma demolição completa, o que aproxima o retrofit de práticas construtivas mais sustentáveis, mesmo quando essa não é a motivação inicial do investidor.
Os números por trás do boom paulistano
O potencial identificado pela Caixa Econômica Federal projeta crescimento de aproximadamente 15% ao ano na próxima década para esse tipo de intervenção, com expectativa de alcançar cerca de 80 mil unidades retrofitadas até 2040 somente em São Paulo. Esses números refletem uma mudança real de percepção sobre imóveis antigos, antes vistos principalmente como patrimônio subutilizado e hoje tratados como ativo estratégico dentro de um mercado imobiliário cada vez mais competitivo por localização.

Conforme sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, o impacto financeiro dessa transformação vai além da valorização do próprio imóvel, já que o retrofit pode elevar o valor do metro quadrado em até 30%, ao mesmo tempo em que reduz custos operacionais na mesma proporção, graças à modernização de sistemas antes ineficientes. O Programa Requalifica Centro, instituído por lei municipal específica, reforça esse movimento ao oferecer incentivos fiscais e edilícios para quem investe na requalificação de prédios na região central, já tendo concluído a revitalização de diversos edifícios históricos entregues à cidade nos últimos anos.
Da arte déco ao escritório corporativo: manter a alma do prédio
Em bairros tradicionais como Higienópolis, Jardins e o entorno da Avenida Paulista, edifícios construídos entre as décadas de 1940 e 1970 concentram parte importante desse potencial, muitas vezes preservando elementos como mosaicos originais, esquadrias de ferro trabalhado e pisos de tábuas largas que dificilmente seriam reproduzidos com a mesma qualidade em uma construção nova. Um edifício de linhas art déco, por exemplo, pode se transformar em apartamentos completamente atualizados sem perder os detalhes que definem sua identidade arquitetônica original.
Na compreensão de Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, o setor corporativo enfrenta desafio semelhante ao adaptar prédios antigos às demandas atuais de conectividade, automação predial e conforto acústico, exigências praticamente inexistentes quando essas estruturas foram projetadas há trinta ou quarenta anos. Soluções como divisórias e sistemas montados a seco permitem executar boa parte dessas atualizações com menor impacto sonoro e menor geração de sujeira no canteiro, possibilitando, em alguns casos, que o edifício continue parcialmente em operação enquanto os andares são modernizados um a um.
Por que o movimento já não se limita ao centro?
Historicamente concentrado na região central de São Paulo, o retrofit começa a ganhar força também em outros bairros da cidade, à medida que o mercado passa a enxergar potencial de requalificação em imóveis subutilizados fora do eixo tradicionalmente associado a esse tipo de intervenção. Escritórios de arquitetura especializados já atuam ativamente nessa expansão, combinando conhecimento técnico e visão estratégica de mercado para transformar estruturas existentes em soluções habitacionais modernas e alinhadas ao perfil do morador contemporâneo.
Segundo menciona Daugliesi Giacomasi Souza, essa descentralização reflete uma mudança mais ampla na forma como o setor imobiliário avalia terrenos e edifícios já construídos, priorizando cada vez mais a requalificação de ativos existentes em vez de depender exclusivamente de novas construções em áreas de expansão urbana. Revitalizar um único edifício antigo costuma gerar efeito multiplicador sobre toda a vizinhança, atraindo novo comércio, restaurantes e serviços para uma região que antes enfrentava esvaziamento gradual. O retrofit prova que renovar não precisa significar apagar: às vezes, o futuro de um edifício depende exatamente da história que ele já carrega nas próprias paredes.
