A securitização no Brasil abriu uma fronteira que, até poucos anos atrás, era restrita a operadores institucionais. Nesse contexto, Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, acompanha esse processo e destaca que a combinação entre a expansão dos FIDCs, a regulamentação mais flexível das Notas Comerciais e o crescimento dos fundos de crédito privado criou condições inéditas para que ativos antes inacessíveis ao investidor qualificado médio passassem a integrar portfólios diversificados com retorno assimétrico real.
Em junho de 2026, o patrimônio líquido total da indústria de FIDCs no Brasil superou R$ 650 bilhões, consolidando esses veículos como peça central da arquitetura de crédito privado nacional. Aqui, você entenderá melhor como essa transformação está redefinindo o acesso ao mercado de crédito estressado e quais são as implicações práticas para investidores e gestores que operam nesse segmento.
A securitização como ponte entre o crédito deteriorado e o mercado de capitais
Por muito tempo, a negociação de carteiras de crédito estressado no Brasil ocorreu de forma bilateral e opaca, com poucos compradores, informação assimétrica e precificação pouco eficiente. A securitização alterou essa dinâmica ao criar uma estrutura que permite transformar carteiras heterogêneas de recebíveis deteriorados em cotas com perfis de risco e retorno definidos, distribuíveis a um universo mais amplo de investidores com apetites distintos.
Na prática, um FIDC constituído para adquirir carteiras de NPL pode emitir cotas sênior, com prioridade de pagamento e menor exposição ao risco de inadimplência da carteira, e cotas subordinadas, que absorvem as perdas iniciais em troca de retorno potencial superior. Essa arquitetura permite que investidores conservadores e agressivos participem da mesma operação em condições compatíveis com seus perfis, ampliando significativamente a base de capital disponível para financiar a recuperação de créditos deteriorados.
Conforme pondera Felipe Rassi, a eficiência dessa estrutura depende criticamente da qualidade da carteira securitizada e da transparência das informações disponibilizadas aos cotistas. FIDCs mal estruturados, com carteiras heterogêneas e informações insuficientes sobre o perfil dos devedores, reproduzem em escala os problemas de assimetria informacional que a securitização deveria resolver.
O novo perfil do investidor de crédito privado em 2026
A base de investidores que alocam capital em instrumentos de crédito privado no Brasil passou por uma transformação relevante nos últimos três anos. A combinação de juros elevados, que tornou o crédito privado competitivo em termos de retorno absoluto, com a maior sofisticação de family offices e investidores qualificados, ampliou consideravelmente o universo de participantes dispostos a assumir o risco de crédito em troca de prêmios superiores aos da renda fixa tradicional.

Esse movimento trouxe capital novo para o mercado, mas também introduziu participantes com menor capacidade de avaliar os riscos específicos de carteiras de crédito estressado. Como esclarece Felipe Rassi, a entrada de investidores menos experientes nesse segmento cria dois riscos simultâneos: o de precificação inadequada de ativos em momentos de euforia, quando o prêmio de risco se comprime além do razoável, e o de resgates abruptos em momentos de estresse, quando a percepção de risco se inverte com igual velocidade. Ambos os fenômenos foram observados no mercado brasileiro entre 2023 e 2025 e deixaram lições concretas sobre os limites da democratização do crédito privado sem educação financeira equivalente.
Inovação regulatória e seus efeitos sobre a estruturação de operações
O ambiente regulatório brasileiro para securitização evoluiu de forma significativa nos últimos anos. A Resolução CVM 175, que entrou em vigor em 2023 e foi sendo implementada progressivamente, trouxe maior flexibilidade na constituição e gestão de fundos de investimento, incluindo os FIDCs, com impactos relevantes sobre a velocidade de estruturação das operações e os custos regulatórios envolvidos.
Sob a perspectiva de Felipe Rassi, as mudanças regulatórias recentes criaram um ambiente mais favorável para a inovação na estruturação de operações de crédito privado, mas também exigiram uma atualização técnica significativa por parte dos gestores e dos prestadores de serviço que operam nesse mercado. Estruturas que eram padrão até 2022 precisaram ser revisadas à luz das novas exigências, e gestoras que não investiram nessa atualização encontraram dificuldades operacionais que impactaram diretamente a qualidade das operações conduzidas no período de transição.
Securitização de NPL: onde estão os limites e as oportunidades reais?
A securitização de carteiras de NPL apresenta desafios específicos que a diferenciam da securitização de recebíveis performados. A incerteza sobre o fluxo de caixa gerado pela recuperação dos créditos, a variabilidade dos prazos de recuperação entre diferentes segmentos de devedores e a dependência do resultado final em relação à qualidade da gestão pós-aquisição tornam a modelagem dessas operações consideravelmente mais complexa.
De acordo com Felipe Rassi, o mercado brasileiro ainda está em fase inicial de desenvolvimento das melhores práticas para securitização de carteiras de NPL com distribuição ampla a investidores. As operações mais sofisticadas nesse segmento em 2026 ainda são restritas a investidores profissionais com capacidade de avaliar os riscos específicos envolvidos, o que representa tanto uma limitação atual quanto uma oportunidade concreta para gestoras que desenvolverem metodologias robustas de estruturação e comunicação desses ativos ao mercado nos próximos anos. O caminho está traçado. A velocidade com que será percorrido dependerá, em grande medida, da qualidade técnica de quem decide trilhá-lo.
