Falar sobre os riscos de um exame de rastreamento pode soar contraditório em um momento histórico dedicado ao incentivo à detecção precoce do câncer de mama, indica Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde. No entanto, esse é justamente um dos temas mais debatidos entre especialistas em saúde pública nos últimos anos, o chamado sobrediagnóstico. Com isso em vista, discutir abertamente essa questão fortalece, e não enfraquece, a alternativa dos programas de rastreamento populacional.
O conceito de sobrediagnóstico pode parecer contraintuitivo à primeira vista, mas compreendê-lo é fundamental para que pacientes e médicos avaliem, com equilíbrio, os benefícios e limites da mamografia. A seguir, vamos entender o que a ciência já sabe sobre esse fenômeno, por que ele acontece e como a medicina vem tentando reduzir seus impactos sem comprometer os ganhos reais da detecção precoce.
O que é, afinal, o sobrediagnóstico em câncer de mama?
O sobrediagnóstico ocorre quando a mamografia identifica lesões que, tecnicamente, se enquadram na definição de câncer, mas que nunca causaram sintomas ou representaram risco de vida caso não tivessem sido descobertas. Estudos populacionais de longo prazo, como os realizados em países escandinavos e publicados em jornais como o BMJ, estimam que uma parcela dos cânceres detectados por rastreamento se enquadra nessa categoria, o que gera tratamentos, como cirurgias e radioterapia, para lesões que talvez nunca evoluíssem clinicamente.
O Dr. Vinicius Rodrigues elucida que essa é uma das áreas mais complexas da radiologia oncológica, já que atualmente não existe uma forma totalmente confiável de distinguir, no momento do diagnóstico, quais lesões realmente progrediram e quais permaneceram resultados por toda a vida do paciente. A consideração dessa limitação não diminui o valor da mamografia, mas exige mais cautela na comunicação dos resultados e nas decisões terapêuticas subsequentes.
Por que considerar esse problema fortalece a confiança no rastreamento?
Ignorar ou minimizar a existência do sobrediagnóstico pode, paradoxalmente, alimentar desconfiança em relação à mamografia quando o tema chega ao conhecimento do público de forma descontextualizada. Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, é mais responsável explicar abertamente essa nuance científica do que deixar que ela seja descoberta de forma isolada, o que poderia ser interpretado como uma falha oculta do sistema de saúde.

Sociedades médicas internacionais, como a National Comprehensive Cancer Network, vêm incentivando pesquisas específicas à identificação de biomarcadores capazes de prever, com maior precisão, o comportamento biológico de determinadas lesões, prejudicando assim a necessidade de tratamentos agressivos para casos de baixo risco. Sob essa perspectiva, o avanço científico caminha para tornar a prevenção não apenas mais precoce, mas também mais criteriosa em relação às decisões terapêuticas.
Como equilibrar a detecção precoce e o tratamento excessivo?
O grande desafio da medicina preventiva atual é manter os benefícios inegáveis da detecção precoce, responsável por reduzir significativamente a mortalidade por câncer de mama, sem submeter mulheres a tratamentos desnecessários para lesões de risco baixíssimo. Pesquisas recentes têm explorado estratégias como vigilância ativa para determinados tipos de instrução em estágio inicial, uma prática já consolidada em outras áreas da oncologia, como o câncer de próstata.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, adaptar esse tipo de abordagem à realidade do câncer de mama exige cautela redobrada, já que o comportamento biológico dessa doença apresenta particularidades distintas. Ainda assim, a tendência dos próximos anos incorporará critérios mais refinados de classificação de risco, permitindo condutas terapêuticas menos invasivas para casos selecionados, sempre respaldadas por evidências científicas robustas e acompanhamento clínico rigoroso.
Prevenção madura é prevenção que também se questiona
Discutir o sobrediagnóstico não representa uma crítica ao rastreamento mamográfico, mas um sinal de maturidade científica em relação a uma ferramenta que, apesar de suas limitações, continua sendo indispensável para salvar vidas. Reconhecer os limites de qualquer exame médico é parte essencial de uma prática responsável e transparente.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que o futuro da medicina preventiva depende justamente dessa capacidade de aprimorar constantemente os critérios de diagnóstico e tratamento, sem abrir mão dos ganhos já consolidados pela detecção precoce. Compreender essa complexidade permite que pacientes e médicos tomem decisões mais informadas, conscientes de que a prevenção eficaz é aquela que evolui continuamente junto com a ciência.
