Uma cidade que decide acabar com o lixão costuma descobrir que o difícil começa depois da última carreta. Segundo Felipe Schroeder dos Anjos, que atua na área de engenharia ambiental, o encerramento de um lixão é um processo com etapas encadeadas, e cada uma depende da anterior para que a área deixe de contaminar o solo, a água e o ar. Quando o passo inicial é pulado, o problema muda de lugar e continua existindo, só que escondido sob uma camada de terra.
O fechamento de um lixão não termina quando o último caminhão deixa o local, porque o lixo acumulado continua se decompondo por muitos anos. Nesse processo, a matéria orgânica gera chorume, o líquido escuro que escorre da massa de resíduos e carrega substâncias capazes de atingir lençóis freáticos e córregos próximos. Também gera gases, entre eles o metano, que se acumulam e podem provocar incêndios e explosões. Por isso o encerramento é tratado como obra de engenharia, e não como simples ato administrativo de interdição.
Primeiro passo: conhecer a área e o que ela guarda
A primeira etapa é diagnosticar. Antes de mexer em qualquer coisa, a equipe levanta o tamanho da área ocupada, a altura e o volume aproximado dos resíduos, a posição de nascentes, poços e cursos d’água, o tipo de solo e o sentido em que a água corre pelo terreno. Em áreas de disposição irregular, o mapeamento costuma incluir sondagens e coleta de amostras de água subterrânea, para saber se já existe contaminação e até onde ela chegou. Sem esse retrato, qualquer solução escolhida depois é palpite.
Na avaliação de Felipe Schroeder dos Anjos, o diagnóstico é a fase que mais pesa nas decisões seguintes, pois define se os resíduos poderão permanecer no local, devidamente isolados, ou se será preciso removê-los para um aterro sanitário. Remover tudo parece a saída mais limpa, mas custa caro e exige um destino com capacidade para receber o material. Manter no lugar, com cobertura e controle, é o caminho mais comum quando a massa de lixo é grande e o terreno permite estabilizá-la com segurança.
Segundo passo: isolar, drenar e dar forma ao terreno
Definido o caminho, a obra começa pela forma do maciço de resíduos, que é o volume de lixo acumulado no terreno. Em lixões antigos, essa massa costuma estar irregular, com taludes, as paredes inclinadas do monte de lixo, muito íngremes e sujeitas a escorregar na época das chuvas. A equipe remodela o terreno, compacta o material e cria inclinações estáveis, de modo que a água da chuva escoe para canaletas, e não para dentro do lixo. Quanto menos água entra na massa de resíduos, menos chorume se forma, e esse é um dos princípios centrais de todo o trabalho.
Em seguida vem a cobertura. Em áreas encerradas, a prática é aplicar camadas sobrepostas, com argila compactada ou material impermeabilizante, uma camada de solo para o plantio e, por cima, vegetação adequada para segurar a terra e reduzir a erosão. Paralelamente, instalam-se drenos para captar o chorume e conduzi-lo a tratamento, além de drenos de gás, que permitem a saída controlada do metano. Em obras desse tipo, o gás captado pode ser queimado de forma controlada e, quando a quantidade justifica, aproveitado para gerar energia.

Como observa Felipe Schroeder dos Anjos, a escolha dos materiais de cobertura e o desenho dos drenos devem acompanhar o clima e o solo de cada região, e não uma receita única. Um terreno argiloso se comporta de um jeito, um arenoso de outro, e a região onde chove muito exige drenagem superficial bem mais reforçada do que a de clima seco. Copiar o projeto de outra cidade sem essa adaptação é um erro frequente.
Terceiro passo: monitorar a área e dar a ela novo uso
Terminada a obra, a área ainda precisa de acompanhamento por anos. O monitoramento inclui poços para coletar água subterrânea, medições de gás e verificação de recalques, que são os afundamentos do terreno à medida que a matéria orgânica se decompõe. Quem acompanha o local observa também a saúde da vegetação, as rachaduras na cobertura e o funcionamento das canaletas. Qualquer sinal de falha exige reparo rápido, antes que a água volte a entrar na massa de resíduos.
E depois do monitoramento, o que fazer com o terreno? A pergunta é legítima, pois uma área recuperada não pode receber qualquer uso. Construir moradias sobre um antigo lixão, por exemplo, é arriscado, já que o solo continua se movimentando e liberando gases por muito tempo. Os usos mais seguros costumam ser os de baixo impacto, como áreas verdes, parques sem grandes estruturas, instalações de energia solar sobre a cobertura ou áreas de lazer sem edificações pesadas.
Conforme explica Felipe Schroeder dos Anjos, o novo uso deve ser decidido no começo do projeto, e não no fim, porque ele influencia a forma do terreno, a espessura da cobertura e o tipo de vegetação. Uma área pensada para receber painéis solares, por exemplo, pede um solo mais estável e inclinações suaves. Quando o destino da área só é discutido depois da obra, surgem adaptações caras ou, pior, usos incompatíveis com o que o terreno suporta.
O que sustenta o encerramento no longo prazo?
Fechar um lixão só funciona se houver para onde enviar o lixo que a cidade continua produzindo. Sem um aterro sanitário, uma estação de transbordo, que é um ponto onde o lixo é reunido antes de seguir ao destino final, ou outra solução de destinação, o risco é que surja um novo ponto de descarte irregular em poucos meses. Por isso, o encerramento costuma andar junto com a organização da coleta, a ampliação da coleta seletiva e a definição de onde cada tipo de resíduo vai parar.
Há ainda o fator humano. Em muitos lixões trabalham catadores que dependem do material para sobreviver, e o fechamento sem alternativa de renda produz um problema social. Programas que integram esses trabalhadores a cooperativas e a galpões de triagem são parte de um encerramento bem planejado, e não um complemento opcional. Uma obra tecnicamente perfeita, mas que deixa pessoas sem sustento, tende a enfrentar resistência e a ser desfeita na prática.
Regras e prazos para encerrar lixões, bem como as exigências de licenciamento, mudam com o tempo e variam conforme o estado e o município, de modo que o planejamento deve partir sempre da orientação do órgão ambiental responsável. Há ainda um ponto que raramente entra na conta: a área recuperada só se mantém recuperada se alguém ficar responsável por ela, com recursos previstos para a manutenção dos drenos, da cobertura e do monitoramento durante os anos em que o terreno continua se acomodando.
