O governo federal avançou na estruturação da Nuvem Brasileira, iniciativa voltada à criação de uma solução nacional de computação em nuvem para órgãos e entidades do Poder Executivo Federal. O projeto é conduzido pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
De acordo com a página oficial do Governo Digital sobre a Nuvem Brasileira, a iniciativa ainda está em fase de estudos e modelagem. A proposta busca orientar a definição técnica, jurídica e contratual de uma infraestrutura capaz de atender às necessidades do Estado, sem significar necessariamente que todos os equipamentos e programas utilizados tenham de ser produzidos no país.
O que o governo entende por soberania digital
O foco do projeto está no aumento do controle sobre dados, operação e tecnologia. Na prática, isso envolve reduzir dependências consideradas críticas em relação a fornecedores estrangeiros e fortalecer a capacidade de continuidade dos serviços públicos digitais, especialmente em áreas nas quais interrupções ou restrições externas poderiam afetar atividades essenciais do Estado.
A localização física dos servidores, por si só, não garante soberania digital. Também entram nessa discussão fatores como a jurisdição aplicável aos dados, a custódia das chaves criptográficas, o controle sobre atualizações, a dependência de licenças e a capacidade de operar a infraestrutura mesmo diante de limitações impostas por terceiros.
Em conteúdo publicado pelo Serpro, a soberania é apresentada como uma avaliação mais ampla das dependências tecnológicas. A empresa informa utilizar uma metodologia baseada em 15 critérios, distribuídos entre soberania de dados, soberania operacional e soberania tecnológica. O objetivo é medir o grau de autonomia de cada ambiente, em vez de tratar a soberania como uma condição absoluta ou isolada.
Escuta de mercado orienta próximos passos
A primeira escuta de mercado da Nuvem Brasileira ocorreu em 3 de setembro de 2026, durante uma audiência pública virtual organizada pela ABDI. O encontro teve como finalidade mapear a capacidade da indústria brasileira e coletar subsídios para a construção da futura infraestrutura.
Essa etapa é relevante porque permite ao governo identificar soluções disponíveis, limitações técnicas e possibilidades de participação do setor produtivo. As contribuições também podem influenciar os requisitos que serão adotados nos futuros modelos de contratação e na definição dos serviços destinados aos órgãos federais.
O processo foi anunciado em 20 de agosto de 2026, durante uma agenda presidencial no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, no Rio Grande do Norte. Em publicação sobre sua participação no projeto, o Serpro destacou a atuação conjunta com as demais instituições públicas na estruturação da iniciativa.
Interoperabilidade e menor dependência de fornecedores
Entre os critérios em discussão estão a adoção de padrões abertos, a interoperabilidade entre diferentes fornecedores e a possibilidade de migrar cargas de trabalho de um ambiente para outro. Esses elementos podem reduzir o risco de aprisionamento tecnológico, situação em que uma organização passa a depender de um único provedor para manter sistemas, dados ou aplicações em funcionamento.
Para a administração pública, a capacidade de movimentar cargas de trabalho e preservar o acesso às informações é especialmente importante. Órgãos federais utilizam sistemas digitais em áreas como identificação, arrecadação, saúde e educação. Por isso, decisões sobre infraestrutura de nuvem envolvem não apenas desempenho e custo, mas também segurança, governança e continuidade dos serviços.
A proposta, portanto, não equivale a um isolamento tecnológico. O conceito discutido pelo governo e pelo Serpro está relacionado à capacidade de conhecer, controlar e administrar os componentes críticos da infraestrutura, inclusive quando parte das tecnologias utilizadas tiver origem estrangeira. A avaliação deve considerar o conjunto de dependências e o impacto que cada uma delas pode exercer sobre a operação do Estado.
Projeto ainda depende de definição técnica e contratual
A Nuvem Brasileira não está apresentada como uma infraestrutura já concluída. O projeto permanece em fase de estudos, escuta de mercado e modelagem. Ainda serão definidos os requisitos técnicos, o arranjo jurídico, o modelo de contratação e a forma de implementação da solução para os órgãos e entidades do Poder Executivo Federal.
O avanço dessas etapas deverá indicar como padrões abertos, mecanismos de segurança, governança de dados e continuidade operacional serão incorporados à iniciativa. Também será necessário estabelecer como diferentes ambientes poderão trabalhar de forma integrada e quais critérios serão usados para avaliar o nível de soberania oferecido por cada solução.
Ao reunir MGI, ABDI, Serpro e BNDES, o governo tenta combinar formulação de política pública, capacidade tecnológica, desenvolvimento industrial e estruturação econômica. O resultado esperado é uma infraestrutura de nuvem com maior controle estatal e menor exposição a dependências que possam comprometer a operação de serviços digitais essenciais.
