Equipamentos de 20 e 100 qubits colocam o Brasil entre os poucos países com tecnologia quântica operacional, reacendendo debate sobre criptografia.
Brasil entra no grupo de países com computação quântica operacional
O governo brasileiro anunciou a instalação de dois computadores quânticos no Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas da Paraíba, o CIQuanta, com capacidades de 20 e 100 qubits. O investimento, estimado em cerca de R$ 150 milhões pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, coloca o Brasil entre um grupo restrito de países com esse tipo de tecnologia funcionando operacionalmente, e a novidade já reacendeu o debate sobre os riscos futuros que a computação quântica pode representar para a segurança de criptomoedas como o Bitcoin.
Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba, Cláudio Furtado, atualmente apenas nove países possuem computadores quânticos operacionais, e o objetivo do projeto é justamente inserir o Brasil nesse grupo seleto. O equipamento foi adquirido de uma empresa chinesa vinculada ao China Electronics Technology Group Corporation, a mesma responsável pelo radiotelescópio Bingo, também instalado no estado da Paraíba.
Como a computação quântica pode afetar a criptografia do Bitcoin
Do ponto de vista técnico, computadores quânticos como os que serão instalados em João Pessoa têm potencial para, no longo prazo, executar algoritmos capazes de comprometer sistemas criptográficos amplamente utilizados hoje, incluindo a criptografia de chave pública que sustenta blockchains como a do Bitcoin e do Ethereum. Segundo o próprio secretário estadual, esses equipamentos podem, em teoria, decifrar sistemas criptográficos em segundos, uma capacidade que, segundo ele, muda completamente o cenário da cibersegurança global quando plenamente desenvolvida.
Relatório aponta que risco imediato ainda é limitado
Apesar desse alerta, um relatório da empresa de segurança digital Taurus, divulgado em junho de 2026, trouxe uma perspectiva mais cautelosa sobre o tema. Segundo o estudo, nenhum computador quântico atualmente existente no mundo possui poder computacional suficiente para executar o chamado algoritmo de Shor de forma prática e comprometer a criptografia de chave pública usada em aplicações reais, incluindo as utilizadas por criptomoedas. Isso significa que, mesmo com o avanço da tecnologia quântica no Brasil, o risco imediato para carteiras de Bitcoin permanece limitado no curto prazo.
Segundo a análise da Taurus, a ameaça mais relevante no momento não é a quebra imediata da criptografia das blockchains, mas sim a rigidez de muitos sistemas de custódia de ativos digitais atuais para incorporar, no futuro, algoritmos resistentes a ataques quânticos. Em outras palavras, o desafio real está menos na capacidade computacional disponível hoje e mais na velocidade com que empresas de custódia conseguirão migrar para arquiteturas de segurança mais modernas quando essa necessidade se tornar concreta.
Aplicações científicas e econômicas da tecnologia
Além da dimensão de segurança digital, o projeto na Paraíba também tem objetivos científicos mais amplos. Segundo informações do governo estadual, a tecnologia deve ser aplicada em pesquisas avançadas envolvendo desenvolvimento de medicamentos, otimização financeira, logística e modelagem climática, áreas em que a computação quântica promete ganhos de desempenho significativos em relação aos computadores tradicionais atualmente disponíveis.
Integração com universidades e expansão da pesquisa
A iniciativa também prevê integração com outras estruturas de pesquisa do país. Segundo a Portaria nº 9.445/2025 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que regulamentou o Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho, universidades federais de estados como Ceará, Pernambuco e Maranhão poderão acessar remotamente os computadores quânticos instalados na Paraíba, ampliando o alcance do projeto para além do estado onde os equipamentos estão fisicamente localizados.
Segundo o secretário municipal de Ciência e Tecnologia de João Pessoa, Guido Lemos Filho, a expectativa é que a capital paraibana se consolide como um polo nacional de referência em computação quântica, reunindo pesquisadores, empresas de tecnologia e instituições de ensino interessadas em explorar as aplicações práticas dessa tecnologia em diferentes setores da economia.
Setor de criptomoedas acompanha evolução da tecnologia
Para o setor de criptomoedas, o desenvolvimento da computação quântica no Brasil e no mundo deve seguir sendo acompanhado de perto nos próximos anos, à medida que empresas de custódia e desenvolvedores de protocolos blockchain avaliam o momento ideal para iniciar a transição para algoritmos de criptografia pós-quântica. Ainda que o risco não seja considerado iminente pelos estudos mais recentes, especialistas recomendam que essa migração comece a ser planejada com antecedência, evitando que o setor seja pego de surpresa por avanços tecnológicos futuros.
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